Ser wesleyano hoje e suas implicações para a educação cristã

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Design nada inteligente - Marcelo Gleiser - Folha de São Paulo - 19.06.2005

Sendo esta a "Micro/Macro" de número 400, decidi abordar a questão do design inteligente (DI). Antes, uma distinção importante. Segundo seus próprios proponentes, deve-se separar as idéias do DI -supostamente científicas- e aquelas do criacionismo, claramente motivadas por correntes evangélicas que adotam uma interpretação literal da Bíblia, isto é, que afirmam sermos descendentes de Adão e Eva, que o mundo foi criado por Deus há menos de 10 mil anos e que foi feito, não só o mundo mas o Universo inteiro e todas as criaturas aqui na Terra, em seis dias.

Segundo o DI, a teoria da evolução de Darwin não dá conta da incrível complexidade observada nos seres vivos. O processo darwinista, como é visto hoje, de mutações aleatórias ao nível dos genes aliadas ao mecanismo de seleção natural, onde as espécies mais bem adaptadas ao ambiente são as que sobrevivem, não consegue explicar a intricada bioquímica essencial para a vida, a coreografia das proteínas, máquinas altamente sofisticadas que coordenam os vários processos metabólicos que ocorrem ao nível celular. Não, afirmam os proponentes do DI, alguma inteligência tem de estar por trás disso, algum misterioso "designer", cuja identidade permanece desconhecida. Os proponentes do DI não afirmam que esse designer seja Deus; pode ser uma inteligência extraterrestre, sabe-se lá. Mas o véu é bem transparente: os maiores financiadores dos centros de DI são grupos evangélicos conservadores. Para esses grupos, a identidade da inteligência é óbvia.
Como analogia, dizem eles, considere a probabilidade de que um macaco, selecionando letras ao acaso, possa escrever um romance; existe intenção e não apenas aleatoriedade na natureza. E intenção significa inteligência. Segundo o biólogo Michael Behe, autor de "A Caixa Preta de Darwin" e um dos dois cientistas por trás do DI, existem sistemas que exibem "complexidade irredutível", saltos que não podem ser explicados por processos que levam gradualmente do simples ao mais complexo. Como, pergunta Behe, surgiu algo como o flagelo que certas bactérias usam para locomoção em meios líquidos, uma espécie de hélice que precisa de todas as suas partes? Retira-se uma de suas 30 proteínas e ele deixa de funcionar.
Esse tipo de argumento não rende. Quem disse que as 30 proteínas já não estavam presentes na bactéria, fazendo outra função até que, eventualmente, passaram a participar do flagelo? Mesmo em tecnologia vemos esse tipo de evolução; partes que têm uma aplicação limitada, após certo tempo, passam a ser essenciais para outras funções, como escreveu o biólogo H. Allen Orr em artigo recente na revista "New Yorker". Orr menciona os Sistemas de Posicionamento Global (GPS), adicionados hoje a alguns carros como uma amenidade. Em 50 anos, carros serão possivelmente dirigidos por computadores que não funcionarão sem GPS para se posicionarem.
É verdade que ainda não entendemos como surgiu a primeira célula capaz de se replicar. Mas isso não significa que nossa ignorância deva ser preenchida por artesãos misteriosos, inexplicáveis. O que aprendemos com isso? Absolutamente nada. O não-saber é a pré-condição do saber. Isso sim reflete o uso da inteligência, a tentativa de explicar aquilo que não sabemos. Inteligência tem intenção. Nenhum proponente de DI explicou qual é a do "Grande Designer". Da próxima vez que você encontrar um besouro caído de costas, aflito, tentando se virar, condenado à morte, pergunte o que ele acha da inteligência do "Designer".