Ser wesleyano hoje e suas implicações para a educação cristã

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Poder sem Limites

CHRONICLE
Elenco: Michael B. Jordan, Michael Kelly, Alex Russell, Ashley Hinshaw, Alex Russell, Anna Wood, Joe Vaz, Matthew Dylan Roberts
Direção: Josh Trank
Distribuidora: Fox Film 
83 min.


Poder sem Limites é um filme curto, divertido porque tem um crescente de ação em boa medida e conta sua história sem barroquismos e enrolações. Tecnicamente é intrigante, pois usa o recurso de câmeras digitais (técnica esgotada desde “A Bruxa de Blair”) com uma explosão de efeitos especiais muito bem cuidados, dando a impressão de realidade ao expectador (apenas bons em “Distrito 9” e “Invasão do Mundo – Batalha de Los Angeles”).
Devemos entender o filme Poder sem Limites na mesma linha de filmes como Harry Potter e Star Wars, só para citar dois exemplos dentre tantos filmes que contam a trajetória de crianças e adolescentes que, descobrindo seus poderes, fazem escolhas para o bem ou para o mal, podendo, com isso, destruir ou criar.
Dois desses jovens (primos) desenvolvem uma amizade que beira à “homossexualidade”, presumida pelo diálogo entre eles, simbólica pela relação intimista que surge em todo adolescente (muito bem observada por Françoise Douto, famosa psicanalista francesa de crianças e adolescentes). Amizade que é abalada pelas escolhas que fazem, tornando-se antagonistas e depois rivais, semelhante ao que acontece com Harry Potter e Tom Riddle (Voldermort) ou Luke Skywalker e Anakin Skywalker (Darth Vader).
Um é altruísta e nerd, chegando a citar filósofos e reflexões que são metalinguagem no filme, ou seja, que indicam do que se trata a narrativa do filme. Dois exemplos são a caverna de Platão e Schoppenhauer, que representam o universo das representações interiores. O outro tem um passado obscuro e cheio de problemas no presente, logo, o poder sobe à cabeça e o seduz, ao ponto do amigo avisar que ele deve tomar cuidado para não “se achar”, isto é, acreditar na sua superioridade, no limite da arrogância. Isso fica claro quando tenta justificar sua escolha para a destruição e morte pela teoria da seleção natural. Assim como Tom Riddle e Anakin Skywalker que mudam seus nomes para uma nova identidade (Voldemort e Darth Vader), Andrew muda seu nome para Hunter (caçador ou predador) porque acredita que é um “predador alfa”, que segue sua natureza selvagem.
A morte de um deles prepara o expectador para o embate final e expressa o quanto o poder exige responsabilidade e, se mal usado, leva a auto-destruição como a destruição dos que estão ao seu redor, geralmente aqueles que você mais ama.
Não precisamos ir mais longe para perceber que o filme é uma metáfora das escolhas que adolescentes e jovens fazem todos os dias. Mesmo que não tenham poderes especiais, potencialmente tem a capacidade de mudar o mundo para o bem ou para o mal, a começar pelo seu próprio mundo. Um jovem é potencialmente um grande criador ou um grande destruidor, alguém que pode tocar o mundo ao seu redor de forma indelével destrutivamente ou construtivamente. Assim fizeram Adolf Hitler, Joseph Stalin ou Augusto Pinochet, tanto quanto Albert Einstein, Charles Darwin ou Nelson Mandela. São apenas dois destinos, múltiplas possibilidades, mas as escolhas são deles.
O diretor, John Trank, disse que seu filme tem uma clara influência de “Akira”, popular mangá japonês de Katsuhiro Otomo, um clássico da cultura cyberpunk, a mesma que influenciou filmes como “Matrix” e “Kill Bill”. “Akira” se tornou um longa-metragem de animação em 1988 e sua história gira em torno de jovens com poderes sobre-humanos, em especial o da psicocinética, o mesmo poder retratado aqui. Semelhante ao que vemos em “Akira”, Poder sem Limites revela a alienação de jovens que, de repente, não sabem o que fazer com tanto poder e se perdem em suas escolhas eticamente capengas. Não a toa vemos em uma das imagens de publicidade do filme a frase “boys will be boys” (meninos serão meninos), isto é, com muito ou poder nenhum, meninos sempre agirão como meninos, faltando-lhes a responsabilidade de agir como homens. Por isso gosto do título original do filme: Chronicle. Todo jovem escreve a sua própria crônica, a sua própria trajetória para o bem ou para o mal.


sábado, 19 de maio de 2012

DONNIE DARKO






2001 (1h20min)

Direção - Richard Kelly

Jake Gyllenhaal, Maggie Gyllenhaal, Drew Barrymore, Noah Wyle, Jena Malone, Mary McDonnell, Patrick Swayze, Seth Rogen, Holmes Osborne, Daveigh Chase, Katharine Ross, Ashley Tisdale, James Duval.


Donnie Darko é um filme de referências, assim como “Matrix”, lançado dois anos antes. São puzzles que exigem que sejam assistidos mais de uma vez para serem montados. Ainda assim sobram muitas peças sem encaixar e, por isso mesmo, são tão abertos a múltiplas interpretações. Talvez essa seja uma das razões que explicam porque nunca me aventurei a escrever sobre “Matrix”; mas vou me arriscar a dizer algo sobre Darko, tentando não cair na superinterpretação.
Em primeiro lugar é preciso ressaltar: esse filme conseguiu chegar ao patarmar de um clássico ou Cult com baixo orçamento e filmado em apenas 28 dias. Richard Kelly, além disso, conseguiu fazer um roteiro bem amarrado e não ser seduzido pelo didatismo; duas proezas raras de se encontrar nos atuais filmes de Hollywood.
Adolescência
Movies-teen em geral tratam adolescentes como seres abobalhados, preguiçosos, baderneiros e extramamente simplistas na forma como encaram a vida. Não que Donnie Darko fuja das incongruências da idade, mas trata um adolescente com uma profundidade pouco vista no cinema. Abuso ao dizer que Darko é o personagem mais lúcido entre personagens perdidos num maniqueísmo de dar dó. Kelly chega a ser irônico ao criar uma “carola” moralista como Miss Farmer, que trata seus alunos justamente como uma fazendeira, e o Dr. Cunning, que divide o mundo em medo e amor. Igual dualismo simplório é visto nos adultos que ficam na dúvida em escolher na política entre candidatos conservadores e liberais.
Darko passa pelas contradições e problemas típicos dos adolescentes (melancolia, raiva, rebeldia, primeiro namoro, briga com os colegas de escola, empatia com professores e antipatia por outros) e, apesar de parecer fugir de sua responsabilidade em amadurecer, sabe, como qualquer outro adolescente, que o tempo está se esgotando e decisões precisam ser tomadas. A busca por sentido e identidade na vida de um adolescente aparece nesse filme à semelhança do que ocorre em outros filmes que protagonizam uma personagem como “Preciosa” ou “Alice no País das Maravilhas”.
Vários são os personagens adolescentes estereotipados: meninas “inocentes” que dançam sensualmente, meninos que brigam por nada, festas, bebidas, fortões e excluídos, como é o caso de Cherita, a gordinha que recebe de Darko um olhar de piedade.
Morte
A morte é possivelmente o tema obsessivo do filme e representada em diversos momentos. Vejamos:
1.      As canções da trilha sonora, várias delas de 1988, ano em que “o mundo vai acabar”, trazem em suas letras não só trechos que são visíveis no roteiro do filme como o tema do destino, intimamente ligado à morte e o tempo.
2.      Em termos filosóficos, a morte é tratada também pelo tema da solidão. Nesse caso, devemos suscitar, mas não explicar, o existencialismo de Sartre que elucidou o quanto estamos sós no mundo, abandonados em busca de sentido. A morte é o limite desse abandono existencial entre o sujeito e o mundo.
3.      Também é filosófico (eu diria um pouco esotérica) o conceito baseado na experiência da Sra Roberta Sparrow (a Vovó Morte) acerca do tempo no livro que ela escreveu: “A filosofia da viagem no tempo”. Aliás, ela corrobora com Sartre quando cochicha no ouvido de Darko: “Cada criatura na Terra morre sozinha”.
4.      Sem dúvida uma referência fundamental para entender o filme é o trabalho que a professora de literatura pede aos alunos baseado no livro de Graham Greene, “Os destruidores”. Ele foi escrito em 1954 e fala sobre adolescentes que destroem uma casa de 200 anos que sobreviveu a Blitz nazista (do alemão “relâmpago”); bombardeio que aconteceu na Grã-Bretanha entre setembro de 1940 e Maio de 1941. O plano dos adolescentes, liderado por um deles, era destruir a casa de dentro para fora e então demolir a estrutura que sobrasse no exterior. Darko interpreta corretamente, conforme fazem os críticos literários, que ao destruírem essa casa, estão ao mesmo tempo criando. Trata-se de uma clara referência sobre aquilo que ele mesmo iria fazer para mudar a história dos outros e de si mesmo. Ao inundar a escola (destruição), conhece sua namorada (criação); ao incendiar o anfiteatro do Dr. Cunning (destruição), ajuda a revelar a pedofilia do doutor falsidade (criação); e por fim, ao voltar no tempo e permitir que uma das turbinas da aeronave caia sobre seu quarto e morra (destruição), salva sua namorada e aproxima os personagens (criação). É a velha fórmula do ciclo da vida: a semente tem que morrer (destruição) para que possa brotar (criação). Adolescentes são assim.
5.      Só quando o filme termina é que ficamos sabendo que o coelho-monstro é na verdade uma fantasia usada por Frank (Frankenstein que ganhou vida pelas alucinações de Darko?) no Dia das Bruxas, dia do fim do mundo. O coelho, um animal que aparentemente invoca afetividade e pena, torna-se uma máscara assustadora, semelhante a uma caveira, uma caveira de morte. Inclusive, Darko, ao avistar o carro vermelho de Frank, quando ele e Gretchen, sua namorada, estão sendo atacados, diz que vem chegando o “nosso salvador”. Possivelmente uma alusão messiânica a morte de Darko e a salvação de Gretchen. Talvez isso estivesse em seus planos. Nesse caso, ele muda o destino.
6.      A própria Gretchen avisa seu fim trágico quando diz: “Acho que algumas pessoas já nascem com a tragédia no sangue.”
7.      Darko usa nesse dia uma fantasia de esqueleto, prenunciando seu sacrifício.
8.      O buraco de minhoca conduz Darko até uma pistola. Acredito que ele deveria ter usado a pistola para que o final trágico com sua namorada não acontecesse, mas ao escolher não usá-la, ele mudou o seu destino, à semelhança do que vemos no filme “Minority Report”.
9.      O close na espiral pintada na turbina do avião talvez signifique justamente o ciclo do tempo marcado pela vida e morte, ou a forma real como o tempo é percebido, ou seja, não só na sua identificação mais usual e linear de passado, presente e futuro, mas como passado que se repete no presente e permite saber o futuro. O tempo cíclico é a “máquina do tempo” dos ancestrais.
10.  Uma cena no cinema aparece o crepúsculo e um relógio, sinais e metáforas da morte.
11.  A “tentação” de Darko em fugir da morte é refletida nos letreiros do cinema em filmes como “The Evil Dead” (Uma Noite Alucinante) e “The Last Temptation of Christ” (A Última tentação de Cristo).
Ciência
Não podemos fixar um gênero apenas para esse filme, mas, uma coisa é certa, podemos considerá-lo em muitos momentos uma ficção científica. O mote é simples: situações extraordinárias são explicadas cientificamente:
1.      Darko quer modificar o destino e controlar a morte ao encontrar uma explicação científica sobre como viajar no tempo. Por isso a citação dos buracos de minhoca, a conversa sobre física quântica com seu professor e a referência a Stephen Hawking.
2.      Darko aconselha Gretchen a escrever sobre antissépticos para um trabalho acerca das maiores invenções da história que beneficiaram a humanidade.
3.      Miss Farmer carrega um livro sobre comportamento.
4.      Em um momento descontraído, Darko dá uma explicação científica para seus colegas da escola demonstrando porque os smurfs não podiam transar.
5.      Darko cita o filme “De Volta para o Futuro”, que está repleto de referências científicas sobre viajar no tempo e, principalmente, sobre o paradoxo temporal – problema que Darko resolve ficando em seu quarto esperando a morte.
6.      Darko e Gretchen fazem um trabalho para a escola com explicações científicas sobre “implantar” boas memórias na mente de bebês através de um par de óculos com imagens agradáveis. Descobrem, porém, que o passado não pode ser apagado da memória.
7.      Como o filme tem uma cronologia confusa e não é sincrônico, lembrando inclusive o filme “Amnésia”, que começa pelo fim, uma boa parte dessa diacronia é explicada por um Darko também confuso e doente.
8.      A professora de literatura diz a Darko sobre uma palavra, “cellar door” (traduzido como "porta de adega”, mas também poderia ser “porta do porão” ou “alçapão”). Trata-se de uma palavra considerada em inglês como “fono-estética”, ou seja, tida tanto por Edgar Allan Poe quanto por J. R. R. Tolkien como a mais bela palavra sonoramente falando. Darko a interpretou como sendo um portal do tempo. Em termos de referência, o filme parece nos remeter claramente à “Alice no País das Maravilhas”, que encontra um outro mundo quando entra em um buraco (o seu buraco de minhoca). Como Alice, Darko segue o seu coelho. Portais desse tipo são comuns nas mitologias e nas histórias de fantasia como em "O leão, o guarda-roupa e a feiticeira" de C. S. Lewis.
O mundo acaba, mas apenas o de Donnie Darko. Como Alice, que tem um coelho branco (“Matrix” também brinca com essa referência) que lhe aponta o tempo todo um relógio, como querendo apressar o amadurecimento da menina, Darko também tem um coelho pressionando-o porque o tempo está acabando e deve realizar o seu sacrifício de anti-herói. O coelho de Alice é eufemizado, diluído, domesticado; o coelho de Darko é monstruoso, contundente, selvagem. Seria a releitura da fábula de Alice em um adolescente dos tempos modernos, que pede não só o amadurecimento de seus adolescentes mas também a sua morte?

domingo, 11 de março de 2012

O soldado que virou bomba – Guerra ao Terror e a Síndrome de Burnout


Guerra ao Terror

Título original: (The Hurt Locker)

Lançamento: 2009 (EUA)

Direção: Kathryn Bigelow

Atores: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce.

Duração: 131 min

Gênero: Drama

Sinopse:

JT Sanborn (Anthony Mackie), Brian Geraghty (Owen Eldridge) e Matt Thompson (Guy Pearce) integram o esquadrão anti-bombas do exército americano, em ação em pleno Iraque. Eles trabalham na destruição de um explosivo, fazendo com que seja detonado sem que atinja alguém. Entretanto, um erro faz com que o artefato exploda e mate Thompson. Em seu lugar é enviado o sargento William James (Jeremy Renner), que possui grande sangue frio em ação. Isto gera alguns desentendimentos com Sanborn, que o considera irresponsável. Apesar disto, o trio segue na ativa, tendo consciência de que cada dia concluído de trabalho é um dia a mais de vida.

Fiquei sabendo pela primeira vez de “Guerra ao Terror” de forma despretenciosa: estava sendo oferecido em “paperview” e não constava ainda na lista de indicações para o Oscar. Não foi nem mesmo lançado no circuito de cinemas. Deixei de lado e fui ver “Avatar”. Resultado: assisti ao Oscar 2010 sem saber bem porque o filme ganhou estatuetas tão importantes (9 indicações e 6 ganhas, sendo filme, direção e roteiro entre as principais).

Só depois, com quase um ano de atraso, assisti ao filme. Assisti com o “peixe” que me venderam, ou seja, de que se tratava de um dos melhores filmes de suspense dos últimos tempos. Mas é só isso? Para mim, nem isso. Para quem se acostumou aos clichês de sustos do cinema, um filme como esse não causa mais quase nenhum impacto em minha já calejada alma. Não vi muitas novidades em termos de suspense, e não foi um filme exatamente inédito no que diz respeito à forma de abordar as sandices das guerras. Não faltou esforço para ver algo a mais, pelo menos na primeira vez. Mas, como sou teimoso e assisto mais de uma vez, na segunda rodada peguei-me dizendo para mim mesmo o quanto eu fui cego. É isso que dá comprar o tal “peixe” vendido pelos “especialistas”, pela propaganda do trailer e pelas sinopses cruas.

Na verdade, o que aconteceu foi um tanto quanto inaudito. Estava dando um curso para professores(as) da rede estadual sobre a Síndrome de Burnout, que tanto acomete os profissionais da educação. Como gosto muito de ilustrar alguns conceitos com filmes, tentei me lembrar que filme se adequaria ao tema. Não sei porque, muitas vezes isso me espanta e não foi a primeira vez que isso aconteceu, mas as imagens que vieram em minha mente foram justamente do trailer desse filme, que eu ainda não tinha assistido. Fiquei fascinado como “Guerra ao terror” se encaixa perfeitamente para explicar a Síndrome de Burnout.

Bem, então faço um desafio: assista ao filme e verifique as característica dessa síndrome que indiquei abaixo:

· Burnout significa, numa tradução literal, “queimar para fora”, ou, numa tradução livre, relacionada ao filme, pode ser “explodir”, “queimar totalmente”.

· A Síndrome de Burnout é um distúrbio psíquico relacionado a um estado agravado de ansiedade e de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso, definido por Herbert J. Freudenberger como "(…) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional".

· O desejo de ser o melhor e sempre demonstrar alto grau de desempenho é outra fase importante da síndrome: o portador de Burnout mede a auto-estima pela capacidade de realização e sucesso profissional. O que tem início com satisfação e prazer, termina quando esse desempenho não é reconhecido. Nesse estágio, necessidade de se afirmar, o desejo de realização profissional se transforma em obstinação e compulsão.

· São doze os estágios de Burnout:

1. Necessidade de se afirmar;

2. Dedicação intensificada - com predominância da necessidade de fazer tudo sozinho;

3. Descaso com as necessidades pessoais - comer, dormir, sair com os amigos começam a perder o sentido;

4. Recalque de conflitos - o portador percebe que algo não vai bem, mas não enfrenta o problema. É quando ocorrem as manifestações físicas;

5. Reinterpretação dos valores - isolamento, fuga dos conflitos. O que antes tinha valor sofre desvalorização: lazer, casa, amigos, e a única medida da auto-estima é o trabalho;

6. Negação de problemas - nessa fase os outros são completamente desvalorizados e tidos como incapazes. Os contatos sociais são repelidos, cinismo e agressão são os sinais mais evidentes;

7. Recolhimento;

8. Mudanças evidentes de comportamento;

9. Despersonalização;

10. Vazio interior;

11. Depressão - marcas de indiferença, desesperança, exaustão. A vida perde o sentido;

12. E, finalmente, a síndrome do esgotamento profissional propriamente dita, que corresponde ao colapso físico e mental. Esse estágio é considerado de emergência e a ajuda médica e psicológica uma urgência.

Sinceramente não tenho nenhuma ideia se a diretora ou o roteirista sabiam dessa aproximação tão evidente com a síndrome. Para completar, fiquei ainda mais impressionado com o título original do filme: “The Hurt Locker”, algo como “o aprisionador de mágoas”. Em resumo, um soldado desarma bombas para que não explodam, mas ele mesmo não pode desarmar a bomba de seu coração, que está prestes a explodir. Em tempo, as verdadeiras armas, as mortais armas, são as pessoas, não os artefatos.

Alice e Clarice: a maravilhosa transformação de duas lagartas em preciosas borboletas



Alice e Clarice: a maravilhosa transformação de duas lagartas em preciosas borboletas – dois casos semelhantes de busca de identidade e protagonismo juvenil


Alice no País das Maravilhas

Título original: (Alice in Wonderland)

Lançamento: 2010 (EUA)

Direção: Tim Burton

Atores: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway.

Duração: 108 min

Preciosa

Título original: (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)

Lançamento: 2009 (EUA)

Direção: Lee Daniels

Atores: Gabourey Sidibe, Mo'Nique, Rodney Jackson, Paula Patton.

Duração: 110 min

Gênero: Drama

Faz alguns anos que tenho passado pelo desafio de entender a linguagem da adolescência e transformar isso em algo que possa fazer sentido em suas “trágicas” vidas. Compreendam, quando digo “trágica”, entre aspas, quero dizer que até agora, em minhas mais de quatro décadas de existência, jamais passei por conflitos tão “trágicos”, sem quase nenhum recurso, quanto na época da adolescência. Se eu ainda passo por conflitos? Sim, é claro. Mas agora tenho recursos psíquicos e maturidade suficientes para, pelo menos, transitar por eles e encontrar algum sentido. Não é a toa, portanto, que a adolescência é uma espécie de “limbo” na transição entre a fase infantil e a fase adulta. Mas é também nessa transição em que o mundo real e o mundo fantástico podem se convergir e gerar uma força que geralmente o adulto esqueceu que possui faz tempo: a força de ser protagonista de sua própria história.

É eu sei, a maioria dos adultos se vê como protagonista, dono de seu nariz, crente em suas potências e poderes, resolvido e desconfiado quando alguém tenta aconselhá-lo. Começou de um jeito, mas foi se transformando em um protagonismo que perdeu suas cores e companheiros. Geralmente é monocromático, egocêntrico, de super-herói, personalista até o último fio de cabelo. O protagonismo adulto não poucas vezes é cheio de neuroses, paranóias e assombros. Quando conquista algo, faz festa sozinho, mesmo quando cheio de pessoas a volta. Pela auto-suficiência se tornou um ator sem coadjuvantes, sem os quais jamais poderia se protagonizar – paradoxal.

Os adolescentes, talvez pelas situações a cada dia ambíguas, não conta ainda com essa auto-suficiência (apesar do sentimento de onipotência) e desconhece as grandes conquistas por conta própria. Talvez também por isso o adolescente descubra, por um processo belíssimo de transformação, que devagar pode ser protagonista de sua própria história, ser ator de seu destino e, diferente de muitos adultos, contar com os coadjuvantes. Com um pouco mais de tempo, pode até ser o autor do seu próprio livro da vida em páginas escritas por ele.

Para ilustrar aos adolescentes (também aos adultos) tal capacidade de se protagonizar, é que recomendo dois filmes aparentemente diferentes um do outro. Na verdade, a diferença é muito mais por conta do contexto do que pela ação protagonizante das personagens. Um é Alice no País das Maravilhas, versão de Tim Burton, que dispensa elogios na forma como cria a sua própria estética; o outro é Preciosa, que nos esbofeteia com diretos de realidade dura sem dó. As personagens se descobrem protagonistas de tal forma semelhante, que gosto de dizer que não é por acaso que uma se chame Alice e a outra Clarice (Claireece); que a figura simbólica nos dois filmes seja uma borboleta, símbolo clássico da transformação (em Precisosa só aparece na ilustração de capa do DVD).

O mundo de Alice é fantástico, colorido e cheio de personagens imaginários, mas não menos conflituoso e amedrontador quanto o de Clarice Precious. Tanto uma quanto a outra precisam enfrentar seus medos e a morte e, ao fazerem isso, encontrar sua identidade, a capacidade de resolver seus próprios conflitos, sem que outras pessoas façam isso por elas. Pelas regras da vida, os outros podem apenas ajudar, mas não podem estar no lugar delas. No caso de Alice, tão somente ela pode “matar”, no caso de Clarice, tão somente ela pode se libertar.

Paro as comparações explícitas por aqui, com o receio de cometer o erro de forçar as personagens a se confundirem. Mesmo porque utilizo os filmes para faixas etárias diferentes (Alice para o ciclo 2 do fundamental e Preciosa para o ensino médio). Para a rede de educadores utilizo os dois filmes e suas possibilidades para o trabalho com adolescentes.

Começando com Alice, podemos ver que logo de início ela encontra com uma lagarta azul (no ombro de seu noivo e depois quando entra no buraco), personagem que vai servir tanto como uma espécie de consciência de sua identidade como símbolo de sua transformação (uma borboleta). Afinal, Alice é uma menina que precisa se tornar uma adulta, mas foge dessa responsabilidade e da crítica dos adultos em sua volta. O buraco é o espaço de sua fuga (símbolo de intimidade e esconderijo existencial) e onde encontra um mundo de fantasia.

Não é porque o mundo que encontra é fantástico que Alice deixa de ser provada. Nesse lugar ela se depara com os mesmos desafios que exigem dela uma postura adulta diante da vida. Alice precisa enfrentar, dominar e, se preciso, matar seus próprios medos (representado no final pelo jaguadarte – um terrível dragão), para só então acreditar e si mesma e descobrir a sua identidade de verdadeira Alice.

O mundo adulto e falso do qual Alice tem que manter distância é representado pelos “cabeças-grandes” e pelas partes falsas do corpo que cada um usa. Esse é o jeito brincalhão do filme com o modo como os adolescentes enxergam o mundo adulto. Aliás, um mundo em geral repressor, que o tempo todo resolve suas queixas com os adolescentes mandando “cortar a cabeça”.

Um deles, um adulto que se sai bem com Alice, é o “chapeleiro”, justamente por que é um “deslocado” da seriedade e atitude sisuda dos adultos. Ele, como os animais, dão a Alice a oportunidade de ser uma protagonista de sua história.

No fim, diante do desafio derradeiro, Alice deve jogar o jogo de sua vida, representado pelas cartas de um baralho e peças de xadrez em um tabuleiro para uma batalha de vida e morte.

Depois que Alice passou pelo processo de crescimento dentro do mundo de fantasia, enfrenta e resolve todos os seus medos e preocupações no mundo real. Antes com dúvida a respeito de si mesma diante dos adultos, agora acha coragem para dizer tudo o que pensa, pois sabe quem é; sinal de autenticidade que todo adolescente encontra para a entrada na vida adulta.

Apesar dos contextos serem diferentes, a história de Preciosa tem a mesma rota que a história de Alice: tanto Alice quanto Clarice saem do mundo real para ir ao mundo imaginário para depois voltar ao mundo real. O “buraco de Alice” de Preciosa é sua fuga para o mundo da fantasia, do devaneio, em que sonha ser atriz famosa e protagonista. Mas, ao contrário, é uma menina aparentemente destinada à uma vida trágica: negra, analfabeta, abusada sexualmente pelo pai, obesa, violentada pela mãe, sofrendo bullying dos colegas da escola, grávida em plena adolescência, baixa autoestima e soropositiva – na década de 80 não havia nenhum tratamento para a AIDS e receber a notícia de soropositivo era o mesmo que receber uma sentença de morte. O que faz com que o momento mais tocante do filme é a relação que Preciosa faz do amor com o pior que existe na vida, um amor que ela confunde com a violência.

Cedo Clarice percebe que não conseguirá se protagonizar, tornar-se dona de sua história se continuar analfabeta. Semelhante ao filme Escritores da Liberdade, Preciosa vagarosamente vai desvelando a mágica da escrita: escrever é libertar-se, é encontrar-se numa identificação que só quem conta a sua própria história consegue. Com essa chave em mãos, ajudada por suas colegas (coadjuvantes) e por sua professora, que se envolve mais do que um educador faria, ela conquista cada espaço, cada território social e existencial que lhe fora negado pela família, escola e sociedade.

“Cada um ensina um” (o trocadilho se perde na tradução em português – each one teach one) é o nome da escola alternativa onde Clarice se transfere e uma clara “cutucada” na educação tradicional que não sabe lidar com adolescentes em situação tão vulnerável como a de Preciosa.

Interessante notar como muitas frases de Preciosa se encaixam perfeitamente na boca de qualquer adolescente de sua idade (cerca de 16 anos): “eu gostaria de ter um namorado com pele clara e cabelos fabulosos... eu queria ser capa de revista”; “semana passada o senhor Raimi me pediu que escrevesse como eu queria ser: eu disse: - cabelos longos, pele clara e magra.”

Enfim é um filme para se trabalhar uma gama grande de temas relacionados ao adolescente: racismo, educação inclusiva, abuso sexual, violência doméstica, bullying, gravidez, autoestima, qualidade de vida, AIDS, homossexualidade (a professora é identificada como lésbica e única acolhedora de Preciosa), ditadura da moda e beleza, etc.

Alice e Clarice são expressões do cinema para a mesma história: adolescentes que devem passar por um processo de transformação que lhes permita se identificarem como protagonistas, em pleno desempenho do papel principal de seus próprios roteiros.