Minhas experiências com a literatura de ficção foram
tardias. Sempre fui um sujeito das “ciências”. Meu primeiro curso universitário
foi em uma faculdade protestante; fiz Teologia. Como lia muito pensadores de
diversas áreas do conhecimento, resolvi fazer também uma graduação em
Filosofia. Mas, quando fui fazer o mestrado é que fui desafiado pelo mundo da
literatura de ficção. Mais especificamente a ficção fantástica
hispano-americana. Queria estudar o Barroco em sua relação com a identidade
cultural latino-americana e suas expressões religiosas. Alejo Carpentier, José
Lezama Lima e Severo Sarduy tornaram-se figurinhas carimbadas. É eu sei, quase
ninguém conhece esses nomes e menos ainda a literatura hispano-americana, mas
essa foi para mim a porta de entrada em um universo que pouco conhecia. Tive na
época só um ano para pesquisar as teorias literárias, suas escolas e
representantes e, claro, ler algumas obras desses grandes mestres do realismo
maravilhoso das terras do sul.
De lá para cá tive contato com outras literaturas
fantásticas, de Harry Potter a Senhor dos anéis. Apesar de terem
um perfil tipicamente anglo-saxão e não serem novidades no cinema, eram
novidade para mim nas letras. Foi quando justamente nessa época letras e cinema
passaram a fazer parte de minhas aulas nas disciplinas que comecei a lecionar
em cursos de Teologia e Filosofia em faculdades. Tendo que lidar com alunos que
tinham dificuldade com os conceitos básicos em disciplinas como Filosofia,
Antropologia e Sociologia, fiz da literatura e do cinema meus companheiros de
sala.
Por volta de 2010 esbarrei com o Rapaduracast, um
podcast sobre cinema que passei a ouvir religiosamente. Nele conheci as sempre
instigantes opiniões dos integrantes que se tornaram para mim um modelo de
crítica de cinema. Fábio Barreto era um deles, com seus já múltiplos projetos.
E não é que um de seus projetos deu muito certo? Escreveu um livro que me
apeteceu. Tanto que esperei ele vir à São Paulo para pegar seu livro Filhos
do fim do mundo autografado.
Li o livro de Barreto e a primeira pergunta que fiz foi:
como um jornalista de cinema pode ter tal afinidade com temas sociológicos e
antropológicos? É claro que imaginei que o contato de Barreto com esses temas
vinha de suas experiências com o cinema e com a perspicácia de perceber as
questões da humanidade no ambiente jornalístico. Mas desconfio que foi mais.
Desconfio que foram aquelas experiências de “possessão” que só os escritores
experimentam. Daquelas que não largam mais, que grudam na alma e fazem um bem
danado. Todo escritor sabe o que é isso. E depois olha para sua obra, para sua
cria e se pergunta: como fiz isso? Foi obra de si mesmo.
Filhos do fim do mundo é um livro corajoso por
vários motivos. Primeiro porque não se entregou ao modelo de literatura “fast
food” que vemos nos atuais best sellers de ficção fantástica, facilmente
descartáveis e fadados ao esquecimento. Coragem que reflete uma escolha que
Barreto fez entre escrever um livro cheio de clichês, seduzido pelo marketing e
venda garantida, e um livro que pede paciência do leitor e paciência do
escritor que teve que bancar a sua própria visibilidade. Segundo porque é
preciso uma boa dose de fidelidade nas convicções que tem sobre a vida para não
se deixar seduzir pela necessidade e obsessão de criar um roteiro que se
entrega logo nas primeiras páginas. Não meu caro leitor, Filhos do fim do
mundo não precisou do didatismo que toma conta e afeta a literatura fantástica
pueril.
Foi por essa coragem que o livro de Barreto despertou
minha atenção estética e pedagógica. Filhos do fim do mundo passou a
fazer parte de minha lista de livros que servem como disparadores conceituais,
ou seja, quando algum conceito complica, saco um livro e tudo fica mais claro.
Em termos sociológicos Filhos do fim do mundo
aborda algumas instituições e seus papéis em situações extremas como a militar,
a mídia (especialmente jornal e internet), o governo, a religião, a saúde, etc.
Assim como algumas vacas sagradas são relativizadas como os direitos civis, a
liberdade, a propriedade e a moralidade. Calma, não estou dizendo que o livro
nega cada uma delas, mas põe sob nova perspectiva quando a humanidade que as
inventou, entra em pânico. Aliás, o grande “personagem” do livro é justamente
essa humanidade em pânico. Nesse caso, o medo faz com que as pessoas abdiquem
de sua humanidade e ponham para fora a sua mais real natureza animalesca e
selvagem. E é aí que está o caos, a miragem que o livro impõe sobre o leitor,
isto é, a ameaça mais fatal não é externa, de alienígenas, zumbis ou monstros
ignotos, mas do próprio homem. Há mais antropológico e sociológico que isso?
Um bom exemplo encontramos na página 193 do livro, que
revela o quanto a humanidade confrontada com o ambiente de caos já mostrou a
sua cara outras vezes, desde tempo imemoriais. A nossa ancestralidade desmente
e denuncia que o processo civilizatório sempre foi frágil e facilmente
substituível.
Outro exemplo, esse de arrepiar, está na página 272:
“Destruir uns aos outros é nossa melhor habilidade e passamos tempo demais
fazendo de conta que podemos nos comportar. O tempo... de faz de conta...
acabou”.
Eu sei que nenhuma dessas abordagens é nova, mas Filhos do fim do mundo não tem vergonha
de expor a singularidade e a honestidade de um autor que veio para ficar.
Aliás, não só autor, porque enquanto estiver em sala de aula, me darei o
direito de evocar o Fábio Barreto para dar os seus pitacos nos temas de
sociologia e antropologia. Seja bem vindo!